O que pode deixar uma pessoa que respira palavras mais
indefesa do que a falta delas?
Não sei se me sinto tão plena por que me perdi de vez ou
por que você e seu silêncio me embalaram. Minha mania de desastre tenta dizer
que me engole, mas não. Tudo que vem de você me acolhe.
Seu mistério me ronda, observa incansável, me abraça. Ele não se importa com a
minha ansiedade, com minha urgência, com os traumas que brigam aqui dentro por
dominação. Ele não se importa com nada que não seja divertido e bom.
Se eu tivesse que nos descrever em uma palavra, seria leveza, e isso me assusta.
Eu nunca fui leve, eu só devastei. Nunca respirei tão calmamente por tanto
tempo. Nunca me permiti desacelerar até deixar que as coisas boas permanecessem
na minha vida. Você é assustador.
Eu sei como é ter medo. Sei como é se sabotar até que tudo desabe ao redor. Sei
o que é sentir culpa e se responsabilizar por coisas que não cabiam a mim. Sei o
que é chorar até secar. Sei o que é acreditar que é possível se blindar de tudo,
do mundo. Sei o que é desacreditar.
Mas e se eu quiser ser leve? E se eu quiser
desacelerar de verdade? E se eu quiser sorrir por uma noite inteira? Se quiser
ficar no agora?
É assustador, mas e se eu quiser morar no seu mistério enquanto ele me fizer
voar?
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